É justo isso?

É justo isso?
Apoie!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Comentário à Entrevista de Michel Onfray, publicada pela Revista Veja (Edição 1906, 25 de maio de 2005)

A seguinte entrevista foi publicada pela Veja, em 2005. Na edição posterior, na seção de cartas da revista, saiu um comentário que escrevi sobre as opiniões do autor do Tratato de Ateologia.






Entrevista: Michel Onfray

"Deus está nu"

O filósofo francês mais lido da atualidade diz que as três grandes religiões monoteístas vendem ilusões e devem ser desmascaradas como o rei da fábula de Andersen



André Fontenelle



Em um tempo em que a religiosidade está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais vendidos na França desde o mês passado, à frente até das biografias de João Paulo II: Tratado de Ateologia. Escrita pelo filósofo mais popular da França na atualidade, Michel Onfray, de 46 anos, a obra é um ataque pesado ao que o autor classifica como "os três grandes monoteísmos". Segundo Onfray, por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: "Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, exceto um". Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte.
Para defender essa argumentação, Onfray valeu-se de uma análise detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, em uma célebre expressão, a "morte de Deus". O filósofo escreve em linguagem acessível, a mesma que emprega ao lecionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali criou uma "universidade popular" que atrai milhares de pessoas a palestras diárias e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio pública France Culture, as aulas de Onfray são sucesso de audiência. Os fãs o consideram um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais influente filósofo francês do século passado. Em seus livros, Onfray propõe o que chama de "projeto hedonista ético", em que defende o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si, ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França para jovens autores. Onfray também tem detratores, que o acusam de repetir idéias ultrapassadas. Em dois meses seu Tratado vendeu 150.000 exemplares. De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista a VEJA.



Veja – Em sua opinião, só o ateu é verdadeiramente livre?



Onfray – Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso me libertar. A liberdade nunca é dada. Ela se constrói no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islã é um entrave e um inibidor da autonomia do homem.



Veja – A que o senhor atribui o sucesso de seu livro num momento em que há tanta discussão sobre religiosidade?





Onfray – Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente atéia. As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre o retorno da religiosidade, a polêmica sobre o direito de usar ou não o véu muçulmano na escola leiga, a oposição maniqueísta entre um eixo do bem judeo-cristão e um eixo do mal muçulmano, a obrigação de escolher um lado entre George W. Bush e Osama bin Laden, a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islã nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença monoteísta forte no primeiro plano da mídia. Meu livro provavelmente funciona como um antídoto a esse estado de coisas, pelo menos na França. Ele ainda está sendo traduzido para outros idiomas.



Veja – Seu livro defende um ateísmo "fundamentado, construído, sólido e militante". Isso quer dizer que é preciso convencer as pessoas da inexistência de Deus?





Onfray – Isso quer dizer que, quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como não chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás da fé – e sim dar à razão o poder e a nobreza que ela merece. Essa é a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo, pelo menos de todo filósofo que se dê ao respeito.



Veja – A desconstrução dos três grandes monoteísmos equivale a mostrar que o rei está nu, como na fábula de Hans-Christian Andersen?



Onfray – Sim. É preciso mostrar que o rei está nu, deixar claro que o mecanismo das religiões é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério tentamos decifrar quebrando-o. O encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por trás das crenças.



Veja – O senhor cita constantemente trechos do Corão, da Bíblia e da Torá para apontar contradições. Por que razão, se em muitos casos esses trechos nem são mencionados pelos religiosos na defesa de suas convicções?



Onfray – Os sacerdotes limitam-se a usar apenas um punhado de palavras, textos e referências, sempre postos em evidência porque são aqueles trechos que permitem assegurar melhor o domínio sobre os corpos, os corações e as almas dos fiéis. A mitologia das religiões precisa de simplicidade para se tornar mais eficaz. Elas fazem uma promoção permanente da fé em detrimento da razão, da crença diante da inteligência, da submissão ao clero contra a liberdade do pensamento autônomo, da treva contra a luz.



Veja – Seu livro cita contradições entre a pregação da paz e a da violência. O senhor pode dar os exemplos mais marcantes dessa situação?



Onfray – O famoso sexto mandamento da Torá ensina: "Não matarás". Linhas abaixo, uma lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante). Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: "Não vim trazer a paz, e sim a espada". O mesmo evangelista afirma a todo instante que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão afirma que "quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade" (quinta sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações ao crime contra os infiéis ("Matai-os onde quer que os encontreis", segunda sura, versículo 191), os judeus ("Que Deus os combata", nona sura, versículo 30), os ateus ("Deus amaldiçoou os descrentes", 33ª sura, versículo 64) e os politeístas ("Matai os idólatras, onde quer que os acheis", nona sura, versículo 5).



Veja – O livro ataca com virulência particular o apóstolo Paulo, descrevendo-o como um histérico. Por quê?



Onfray – Basta ler os Atos dos Apóstolos, nos trechos que descrevem a conversão de Paulo, e conhecer um pouco de psiquiatria, ou ter um manual de psicologia ao alcance da mão, para ver quanto os sintomas da visão que originou sua conversão coincidem com os descritos pelos especialistas em histeria: perda de tônus muscular, queda, cegueira momentânea etc. Ao me referir a Paulo, eu não emprego o termo neurose como um insulto de caráter moral, mas como um diagnóstico que pode ser estabelecido por um psiquiatra.



Veja – Há uma diferença entre ser contra as religiões e não acreditar na existência de Deus?



Onfray – É possível acreditar em Deus e viver sem religião. Mas não conheço religião que viva sem Deus. Trata-se do mesmo combate, verso e reverso da mesma medalha.



Veja – Mas não são poucos os que sustentam que a necessidade de Deus é inerente ao ser humano. Há quem acredite que essa necessidade é genética.



Onfray – Essa necessidade é cultivada culturalmente. É claro que não existe. Muito menos geneticamente. Essa é uma idéia ridícula. Não há nada no cérebro além daquilo que é posto nele. Já se viu alguma criança – imagem do que pode haver de mais natural – nascer acreditando em algum deus ou em alguma transcendência? Deus e a religião são invenções puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por exemplo, com a filosofia.



Veja – Como o senhor explica o fato de muitos cientistas, diante da impossibilidade de explicar a imensa complexidade do universo, se voltarem para a hipótese da criação divina?



Onfray – O recurso a Deus e à transcendência é um sinal de impotência. A razão não pode tudo. Deve ser consciente de suas possibilidades. Quando ela não consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico ou mágico. A idéia da criação divina é uma espécie de doença infantil do pensamento reflexivo.



Veja – Como filósofo ateu, como o senhor viu a forte comoção popular pela morte do papa?


Onfray – Tamanho fervor deve ser relacionado com o fato de que João Paulo II foi de fato o primeiro "papa catódico", o primeiro sumo pontífice da era da comunicação de massa. Foi o homem mais filmado do planeta. Logo, era o maior portador da aura que a mídia confere. A maioria das pessoas tem fascínio pelos ícones eleitos pela mídia e acredita mais neles do que na verdade física. Daí a estranha sensação quando a TV prova que por trás daquela imagem divinizada havia alguém bem real, de carne e osso. Isso ficou demonstrado, na morte do papa, pelo uso espetaculoso da exposição do cadáver e pela criação de uma reação histérica entretida e amplificada pela transmissão televisiva.



Veja – O senhor retoma casos recentes e antigos em que o papel da Igreja Católica não foi dos melhores: ataques a Galileu, silêncio diante do holocausto ou do genocídio em Ruanda. Mas é possível encontrar outros tantos exemplos de bons momentos do catolicismo. Isso não mostra que o problema não são as religiões e sim os homens que as interpretam?



Onfray – Não me proponho a escrever uma resposta ao livro O Gênio do Cristianismo (obra de 1802 do escritor francês François-René de Chateaubriand, que refutava os filósofos anti-religiosos de seu tempo). O que quero é mostrar que as religiões, que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário. Não me parece muito digno de interesse que os monoteísmos possam ter gerado o bem aqui ou acolá. Afinal, é a isso mesmo que eles dizem se propor. Não há motivo para espanto. Em compensação, que se devam a eles tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, me parece muito mais importante como prova da inanidade das doutrinas.




Veja – Críticos católicos alegam que seu livro nada fez senão repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos novos?



Onfray – Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos.



Veja – Não se pode negar que a religião proporciona valores morais e éticos a muitas pessoas que de outra forma não os teriam. Isso, por si, não bastaria para justificar a existência das religiões?



Onfray – Se não houvesse alternativa, certamente. Mas há. A filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu, às religiões. É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massa.



Veja – O senhor acha que um dia o mundo será predominantemente ateu?



Onfray – Não. A fraqueza, o medo, a angústia diante da morte, que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes, para usar uma expressão do século XVII, defendam as idéias justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só isso já seria muita coisa.





Veja – Quando e como o senhor se tornou ateu?



Onfray – Até onde consigo me lembrar, sempre fui ateu, a não ser na infância, quando acreditava na mitologia católica como se acredita em Papai Noel ou nas lendas do folclore. A história contada pelo catolicismo tem tanto valor quanto essas. Está no mesmo nível dos contos da carochinha, em que os animais conversam e os ogros comem criancinhas. Assim que um embrião de razão habitou meu espírito, não me importei mais com esse pensamento mágico – que só serve, justamente, para as crianças.



Veja – Do que se trata, exatamente, a "universidade popular" que o senhor criou?



Onfray – Eu criei essa universidade, com um grupo de amigos, três anos atrás, com o objetivo de proporcionar um saber filosófico exigente ao maior número possível de pessoas, de todas as origens, sem distinção de classe, religião, sexo, idade, formação, poder aquisitivo ou nível intelectual. E, ao mesmo tempo, permitir a construção de si mesmo como pessoa livre, independente e autônoma. Organizamos seminários sobre idéias feministas, política, cinema, arte contemporânea ou psicanálise, entre outros. Também temos uma oficina de filosofia para crianças. No que me diz respeito, ensino uma contra-história da filosofia – atéia, materialista, sensualista, hedonista, anarquista.



Veja – Que tipo de público freqüenta seus cursos?



Onfray – O público é indefinível, verdadeiramente popular: jovens, velhos, homens, mulheres, universitários, gente sem diploma, trabalhadores especializados, como pilotos de Airbus e neurocirurgiões, não qualificados ou desempregados, como os demitidos de uma montadora de automóveis da região.



Veja – A idéia está dando certo?



Onfray – O princípio dela já permitiu que se espalhe por cinco ou seis outras cidades. Há outros projetos de expansão.






_______________________________________________________________________













Cartas



Michel Onfray



Na qualidade de filósofo "que se dá ao respeito", não poderia deixar de manifestar meu apoio às idéias de Michel Onfray (Amarelas, 25 de maio), embora perceba que suas teorias possuem um certo fundamentalismo também expresso em religiões por ele combatidas. A construção do conhecimento pela via da Razão é, de fato, uma forma de nos libertarmos da simples compreensão imaginária imposta pela mitologia religiosa. Porém, na medida em que adquirimos essa liberdade, mergulhamos no mais íntimo e misterioso universo transcendente e imanente de Deus, no qual a experiência científica não passa de um minúsculo refletor, e o dogma, da mais precária forma de tradução desse universo.


Cosme Rogério Ferreira
Palmeira dos Índios, AL

terça-feira, 27 de maio de 2008

Palmeira Viva

Amanhã há de ser outro dia.
Todo dia a conversa se repete.
Será a mesma coisa de ontem...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Campo de aviação

Palmeira dos Índios possui
Um campo de aviação
Lugar de namoro escondido
De desova e assombração
De tirar uma onda na moita
Ou de aprender direção
De tudo se faz um pouquinho
Só não pousa por lá avião

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O dia que a comunidade Xukuru-Palmeira recebeu a visita de Jesus

A experiência comunitária Xukuru-Palmeira tem sido marcada por momentos muito fortes de fé e de resistência emanada da mesma. Cada momento desses guarda um significado profundo, mas nenhum deles foi tão intenso quanto o vivido no dia em que a comunidade recebeu – em sua própria interpretação – a visita de ninguém menos que Jesus Cristo. Antes de nos aprofundarmos na análise interpretativa do ocorrido, convém que o conheçamos logo como foi relatado por seus protagonistas e por nós testemunhado.
No mês de novembro de 2007 a comunidade realizou duas ocupações do prédio da Administração Regional da Fundação Nacional do Índio, na capital alagoana. Os índios cobravam o pagamento, prometido pelo órgão, do frete de um veículo que os havia conduzido a Brasília, bem como queriam garantir outro frete para o mesmo destino. Pretendiam efetuar a entrega, ao Departamento de Assuntos Fundiários da FUNAI, do diagnóstico sócio-econômico da comunidade, elaborado pela Universidade Federal de Alagoas na forma do relatório intitulado “Xukuru-Palmeira: o oitavo grupo Xukuru-Kariri”.
A grande experiência mística se deu logo na primeira ocupação, marcada principalmente pelo desânimo resultante da falta de alimentação suficiente para todo o grupo ao longo da estada. Alguns disputavam os melhores pedaços da pouca carne de galinha que havia. Outros preparavam pratos às escondidas. Uns, pouquíssimos, que possuíam algum dinheiro, preferiam sair dali e comer longe da vista dos outros. Um subgrupo formou-se em torno da indignação diante da má distribuição da comida, e decidiu dividir os mantimentos para que os seus membros preparassem a própria alimentação. Geralmente, quando se desjejuava pela manhã não se almoçava. Quando se almoçava, não se desjejuava pela manhã nem se jantava. Houve instantes em que alguém ficou sem comer, para ceder sua vez ao outro. A desagregação tornou-se então a maior ameaça à sobrevivência da comunidade enquanto ela estivesse naquele momento envolvida na conquista dos seus objetivos.
A tensão atingiu seu grau mais alto quando as discussões por qualquer motivo entre eles tornaram-se mais agressivas, sendo que sempre as intrigas giravam sempre em torno da falta de alimentação. Todos afinal não admitiam principalmente passar fome numa luta como aquelas, ou almoçar sem a carne ou sem qualquer outra “mistura”, como ovo ou peixe, além do feijão, do arroz e da farinha, cada vez mais escassos.
No dia quatorze de novembro, por volta das treze horas, alguns índios estavam proseando à porta do prédio, tratando de remoer as angústias, quando um morador de rua, idoso, exatamente uma daquelas pessoas que vivem em situação de extrema miséria a pedir esmolas pela Praça Sinimbu, caminhou vagarosamente na direção deles. Trazia consigo um prato fechado feito de papel-alumínio, chamado marmitex. Aquele pobre indigente ofereceu então o embrulho ao índio Manoel Cavalcante, a quem chamam de Manezinho, que recusou, embora o homem insistisse em que ele aceitasse a oferenda. Na sociedade capitalista, fundada no lucro exacerbado e na competição constante, pode ser um ato de loucura – entendida como fuga da normalidade – dar ao outro aquilo que o sujeito não tem nem para suprir a sua necessidade. No intuito de por fim à insistência, Gilmar Lourenço, irmão do cacique Xiquinho, referiu-se ao Manezinho dizendo-lhe: “Aceite! Está sendo dado de bom coração”. Manezinho pegou então o marmitex que lhe foi entregue, e o idoso anônimo, tendo visto sua vontade ser cumprida, partiu dobrando a esquina seguinte. Após esse ligeiro ruído, os índios retomaram as suas conversas, permanecendo ainda alheios ao que havia ocorrido. Passado algum tempo, o Manezinho resolveu abrir o embrulho, e pôde constatar algo que deixou todos evidentemente surpresos: no marmitex só havia pedaços de carne – exatamente aquilo cuja falta foi estopim de toda a crise interna que abalou a vida comunitária durante aquela ocupação. O grupo então se espalhou à procura daquele anônimo, aparentemente em tudo mais necessitado que eles, não obtendo sucesso.
Na interpretação do cacique e do pajé, fortemente influenciada pela perspectiva cristã da solidariedade samaritana (exigente de atitudes concretas de compaixão por quem sofre, independentemente de onde venha ou de para quem se direcione), o índios tiveram naquele momento a visita do próprio Jesus Cristo, transfigurado no rosto do mendigo que lhes ofereceu materialmente aquilo que eles necessitavam para a manutenção do organismo e também, simbolicamente, a oportunidade de reconciliação em torno da mesma mesa, necessária à manutenção da harmonia da comunidade.
O Papa João Paulo II, na mensagem que enviou aos brasileiros por ocasião do início da Campanha da Fraternidade de 1987, que teve como lema: “Quem acolhe o menor, a mim acolhe”, diante da constatação de que o mundo assimilou mediocremente a doutrina do “bom mestre”, exortou os seus fiéis a um radical relacionamento de amor uns pelos outros – algo que carecia de conversão, de mudança individual e comunitária: "Conversão sincera e radical, abrangendo as dimensões comunitárias da vida e da fé; conversão exigente, mas libertadora, na medida em que o 'outro' for para nós, cada vez mais, presença de Jesus Cristo, identifìcado com o irmão carente: 'a mim o fizestes'; e, sobretudo, conversão amorosa: o amor existe e sobrevive, apesar de tudo, no chão silencioso de muitos corações; mas só terá plenitude no relacionamento coerente, de cada pessoa e de cada comunidade, com o Amor".
Satisfeitos, ao menos espiritualmente, após comerem a carne repartida em sacrifício – sentido eucarístico da relação comunitária – os índios resolveram então agradecer o milagre do jeito que mais gostam: com um longo e animado toré. Assim motivados, decidiram depois por voltarem todos ao acampamento em Palmeira dos Índios, com o objetivo de resolver definitivamente os problemas internos e de nutrir mais coesão para o retorno à FUNAI, em Maceió, que se daria na semana imediatamente seguinte.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Carta da Terra de Palmeira dos Índios


Caros amigos e amigas,

A seguir, o documento lido pela Comunidade Xukuru-Palmeira durante a retomada das terras imemoriais, no que hoje é a Fazenda Buenos Aires, propriedade do Sr. Noé Simplício, em Palmeira dos Índios - Alagoas.

Leiam e divulguem!

Na calidez do abraço,

Cosme Rogério Ferreira Cavalcante.



Carta da Terra de Palmeira dos Índios


Manifesto da Comunidade Xukuru-Palmeira, da etnia Xukuru-Kariri, na luta pelo re-conhecimento e devolução de suas Terras Imemoriais.



Palmeira dos Índios – Alagoas, em 6 de março de 2008.


1. Há mais de dois séculos, quando a Coroa Portuguesa iniciou no Brasil um novo ciclo de colonização, ocupando e povoando efetivamente os sertões nordestinos, começou também a história de sofrimento e opressão de nossos antepassados, submetidos então ao pesado caçuá de contribuir para a construção da identidade nacional brasileira.
2. Como pássaros antes livres, arrancados das matas onde viviam, os Xukuru e os Kariri foram engaiolados obrigatoriamente em aldeias fixas, onde deveriam ser preparados, por meio de um processo específico de catequese, para servirem no árduo trabalho nas lavouras e nas áreas de criação de gado que não lhes pertenciam.
3. A cidade de Palmeira dos Índios é fruto desse processo: nasceu como um aldeamento missionário sob a responsabilidade dos frades capuchinhos, ao redor do qual foram erguidas as cercas marginalizantes dos fazendeiros e pequenos proprietários. O poder devastador do “branco” assentou-se sobre o sangue e a carne dos índios, embora não tenha conseguido suplantar o seu Espírito de Luta.
4. Expulsos de seu lar, seqüestrados de suas terras, nossos ancestrais transformaram-se em gente estranha, perdendo a língua nativa, esquecendo os usos e costumes próprios, deixando de lado os seus atributos culturais, forçadamente abrindo mão da identidade indígena.
5. Apesar de todas as condições adversas, porém, encontramos na história inúmeros exemplos – testemunhos vivos e verdadeiros – de resistência, que mantiveram elevados, bem no alto, o candeeiro da esperança e da ternura que tem iluminado a nossa caminhada até aqui. Foi graças a eles que a memória do nosso povo atravessou o oceano de calamidades impostas pela cultura dominante, e é em memória deles que celebramos este dia histórico para as nações indígenas do Nordeste: o dia em que a Comunidade Xukuru-Palmeira, da etnia Xukuru-Kariri, cujos índios antes foram maldosamente pré-conceituados como “andarilhos calados”, elevou bem alto a voz por justiça, e adentrou uma parte das Terras Prometidas ao seu povo há tempos imemoriais.
6. Como fez aquele povo negro há pouco mais de quatro décadas passadas, marchando sobre a Capital estadunidense na busca do reconhecimento da igualdade de direitos civis, nós hoje aqui estamos para cobrar também uma nota promissória, assinada pelo Estado Brasileiro há muitos anos. É uma dívida para com todo o povo pobre do nosso País – rico em diversidade, mas profundamente marcado por desigualdades, cometedor de inúmeros pecados sociais.
7. Nós, índios e índias de Palmeira, tornados empobrecidos, temos alimentado continuamente a ânsia do tão sonhado respeito ao nosso modo de vida e organização que tentamos, a duras penas e por incalculáveis sacrifícios, resgatar e preservar, mesmo que às escondidas.
8. Poucos como nós, da Comunidade Xukuru-Palmeira, têm consciência da intensidade da dor de ver sua aldeia se transformar em periferia; poucos têm idéia da imensa angústia e do aparentemente infindável desespero de ver sua família se desintegrar no alcoolismo, no uso e no tráfico de drogas, na prostituição adulta e infantil, no desemprego e na exploração do trabalho, na falta do acesso à educação, à moradia, à saúde, ao espaço para zelar por suas obrigações Sagradas, enfim, excluídos do direito à vida digna, do direito de ser humano, do direito de ser liberto, do direito de ser índio, do direito de ser gente.
9. Queremos a Terra, mas não a queremos como a querem os nossos exploradores! Queremos a Terra, não só porque ela nos pertence, mas principalmente porque somos nós que pertencemos a ela! Longe de nossa Mãe-Terra, não passamos de filhos e filhas abandonados. É dela que tiramos nosso sustento. É nela que montamos abrigo. É com ela que louvamos as energias encantadas que nos fazem ser comunidade – um só povo em comunhão, unido pelo mesmo Amor. É para ela que um dia todos nós re-gressaremos, mas nutrindo a fé de que podemos viver com dignidade, antes desse dia chegar.
10. Somos 94 famílias des-aldeadas à espera de que o Departamento de Assuntos Fundiários – DAF, órgão vinculado à Fundação Nacional do Índio – FUNAI, regularize a nossa situação em caráter emergencial. Requeremos, em nome de Nosso Pai Tupã e em nome de quem pode mais do que a nossa simples matéria, que o Estado Brasileiro cumpra o que nos prometeu, e que quite sua dívida para conosco, conforme o dito na nota promissória assinada há vinte anos, na promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil.
11. Enquanto isso, permaneceremos aqui, nesta área que re-tomamos pacificamente, na expectativa de ocuparmos definitivamente aquilo que já foi nosso, resistindo, produzindo e transformando-o em um ambiente melhor para todos e todas.
12. Para tanto, conclamamos os nossos irmãos e irmãs, re-conhecidos não pela cor da pele – mas sim pela cor do sangue, a abraçar conosco essa causa. Especialmente os guerreiros e guerreiras da paz de outras etnias – afro-indígenas – presentes conosco desde o início da nossa organização, bem como aos parentes e parentas da valorosa Nação Xukuru-Kariri, à qual pertencemos, pois a vitória na luta pela Demarcação de nossas Terras dependerá tão-somente da união de todos e do compromisso de cada um de nós.
13. Conclamamos todo o Povo de Deus, nuestros hermanos y hermanas de América Latina, os aliados e apoiadores dos vários órgãos, instituições e entidades que vêm se pondo historicamente a favor da garantia dos Direitos Humanos e da defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, assim como a todos os trabalhadores e trabalhadoras – do campo e da cidade – como nós, a assumirem conosco esta bandeira, a favor de uma existência mais justa, solidária e fraterna.

Sambeá, Nhaehí, Uná!
Resgatar, Reunir, Repartir!
Avante meu povo! Batam palmas e digam “Viva!”, porque os índios estão na Terra!