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quarta-feira, 16 de abril de 2008

O dia que a comunidade Xukuru-Palmeira recebeu a visita de Jesus

A experiência comunitária Xukuru-Palmeira tem sido marcada por momentos muito fortes de fé e de resistência emanada da mesma. Cada momento desses guarda um significado profundo, mas nenhum deles foi tão intenso quanto o vivido no dia em que a comunidade recebeu – em sua própria interpretação – a visita de ninguém menos que Jesus Cristo. Antes de nos aprofundarmos na análise interpretativa do ocorrido, convém que o conheçamos logo como foi relatado por seus protagonistas e por nós testemunhado.
No mês de novembro de 2007 a comunidade realizou duas ocupações do prédio da Administração Regional da Fundação Nacional do Índio, na capital alagoana. Os índios cobravam o pagamento, prometido pelo órgão, do frete de um veículo que os havia conduzido a Brasília, bem como queriam garantir outro frete para o mesmo destino. Pretendiam efetuar a entrega, ao Departamento de Assuntos Fundiários da FUNAI, do diagnóstico sócio-econômico da comunidade, elaborado pela Universidade Federal de Alagoas na forma do relatório intitulado “Xukuru-Palmeira: o oitavo grupo Xukuru-Kariri”.
A grande experiência mística se deu logo na primeira ocupação, marcada principalmente pelo desânimo resultante da falta de alimentação suficiente para todo o grupo ao longo da estada. Alguns disputavam os melhores pedaços da pouca carne de galinha que havia. Outros preparavam pratos às escondidas. Uns, pouquíssimos, que possuíam algum dinheiro, preferiam sair dali e comer longe da vista dos outros. Um subgrupo formou-se em torno da indignação diante da má distribuição da comida, e decidiu dividir os mantimentos para que os seus membros preparassem a própria alimentação. Geralmente, quando se desjejuava pela manhã não se almoçava. Quando se almoçava, não se desjejuava pela manhã nem se jantava. Houve instantes em que alguém ficou sem comer, para ceder sua vez ao outro. A desagregação tornou-se então a maior ameaça à sobrevivência da comunidade enquanto ela estivesse naquele momento envolvida na conquista dos seus objetivos.
A tensão atingiu seu grau mais alto quando as discussões por qualquer motivo entre eles tornaram-se mais agressivas, sendo que sempre as intrigas giravam sempre em torno da falta de alimentação. Todos afinal não admitiam principalmente passar fome numa luta como aquelas, ou almoçar sem a carne ou sem qualquer outra “mistura”, como ovo ou peixe, além do feijão, do arroz e da farinha, cada vez mais escassos.
No dia quatorze de novembro, por volta das treze horas, alguns índios estavam proseando à porta do prédio, tratando de remoer as angústias, quando um morador de rua, idoso, exatamente uma daquelas pessoas que vivem em situação de extrema miséria a pedir esmolas pela Praça Sinimbu, caminhou vagarosamente na direção deles. Trazia consigo um prato fechado feito de papel-alumínio, chamado marmitex. Aquele pobre indigente ofereceu então o embrulho ao índio Manoel Cavalcante, a quem chamam de Manezinho, que recusou, embora o homem insistisse em que ele aceitasse a oferenda. Na sociedade capitalista, fundada no lucro exacerbado e na competição constante, pode ser um ato de loucura – entendida como fuga da normalidade – dar ao outro aquilo que o sujeito não tem nem para suprir a sua necessidade. No intuito de por fim à insistência, Gilmar Lourenço, irmão do cacique Xiquinho, referiu-se ao Manezinho dizendo-lhe: “Aceite! Está sendo dado de bom coração”. Manezinho pegou então o marmitex que lhe foi entregue, e o idoso anônimo, tendo visto sua vontade ser cumprida, partiu dobrando a esquina seguinte. Após esse ligeiro ruído, os índios retomaram as suas conversas, permanecendo ainda alheios ao que havia ocorrido. Passado algum tempo, o Manezinho resolveu abrir o embrulho, e pôde constatar algo que deixou todos evidentemente surpresos: no marmitex só havia pedaços de carne – exatamente aquilo cuja falta foi estopim de toda a crise interna que abalou a vida comunitária durante aquela ocupação. O grupo então se espalhou à procura daquele anônimo, aparentemente em tudo mais necessitado que eles, não obtendo sucesso.
Na interpretação do cacique e do pajé, fortemente influenciada pela perspectiva cristã da solidariedade samaritana (exigente de atitudes concretas de compaixão por quem sofre, independentemente de onde venha ou de para quem se direcione), o índios tiveram naquele momento a visita do próprio Jesus Cristo, transfigurado no rosto do mendigo que lhes ofereceu materialmente aquilo que eles necessitavam para a manutenção do organismo e também, simbolicamente, a oportunidade de reconciliação em torno da mesma mesa, necessária à manutenção da harmonia da comunidade.
O Papa João Paulo II, na mensagem que enviou aos brasileiros por ocasião do início da Campanha da Fraternidade de 1987, que teve como lema: “Quem acolhe o menor, a mim acolhe”, diante da constatação de que o mundo assimilou mediocremente a doutrina do “bom mestre”, exortou os seus fiéis a um radical relacionamento de amor uns pelos outros – algo que carecia de conversão, de mudança individual e comunitária: "Conversão sincera e radical, abrangendo as dimensões comunitárias da vida e da fé; conversão exigente, mas libertadora, na medida em que o 'outro' for para nós, cada vez mais, presença de Jesus Cristo, identifìcado com o irmão carente: 'a mim o fizestes'; e, sobretudo, conversão amorosa: o amor existe e sobrevive, apesar de tudo, no chão silencioso de muitos corações; mas só terá plenitude no relacionamento coerente, de cada pessoa e de cada comunidade, com o Amor".
Satisfeitos, ao menos espiritualmente, após comerem a carne repartida em sacrifício – sentido eucarístico da relação comunitária – os índios resolveram então agradecer o milagre do jeito que mais gostam: com um longo e animado toré. Assim motivados, decidiram depois por voltarem todos ao acampamento em Palmeira dos Índios, com o objetivo de resolver definitivamente os problemas internos e de nutrir mais coesão para o retorno à FUNAI, em Maceió, que se daria na semana imediatamente seguinte.