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domingo, 30 de outubro de 2011

Graciliano Ramos: um ilustre esquecido em Palmeira dos Índios

Das duas, uma: ou a atual administração de Palmeira dos Índios é ignorante, se não souber que a semana na qual coincide a data do nascimento de Graciliano Ramos (27 de outubro) compõe o calendário oficial do município, ou é de má-fé, se souber e fazer de contas que a data não existe.

A não realização da Semana Graciliano Ramos, especialmente neste ano em que são celebrados os 75 da publicação de "Angústia", é mais um dado a confirmar empiricamente a falência de um modelo de gestão que não privilegia a cultura como estratégia de superação das desigualdades sociais. Um dos feitos mais escandalosos desse modelo foi a "limpeza" da Biblioteca Pública Municipal: com o argumento de que alguns livros estavam muito "velhos" e que o acervo carecia de outros "novos", foram descartadas obras raras, como exemplares da única edição publicada de "Terra dos Chucurus", de Bezerra e Silva. Ora, enquanto se discute, em nível nacional, a alteração da Lei de Direitos Autorais, permitindo reproduções necessárias à conservação, preservação e arquivamento do acervo de bibliotecas públicas, os gestores de Palmeira dos Índios tratam de jogar a memória da cidade no lixo, e deixam documentos do Arquivo Público Municipal grudarem no chão, expostos à poeira e às traças.

Há ameaças de que a família do escritor, detentora do direito de exploração econômica da obra graciliânica, se movimentará para retirar de lá os pertences do homenageado, se não forem tomadas as providências no sentido de se valorizar o acervo da Casa Museu. É uma notícia apavorante, entre as tantas negativas que constantemente têm oprimido a nossa população, já que o sofrimento tem a ela se revelado sob múltiplos aspectos: desemprego, aumento da criminalidade, falta de perspectivas para a juventude, baixa auto-estima. Poucas são as notícias animadoras nos últimos tempos.

Assim como o direito aos meios de sobrevivência, os seres humanos têm também direito de dar um sentido para as suas vidas. Como bem afirmou o ex-ministro Juca Ferreira, "desenvolvimento só é possível com inclusão". Ao negar o acesso à cultura, ao destruir bens culturais, ao desfazer tradições, ao desmanchar os lugares da memória coletiva, a administração do município dá um golpe mortal na alma do palmeirense. Se se relega ao esquecimento Graciliano Ramos, um dos mais ilustres escritores brasileiros, fica arrefecida também a chama daqueles que desejam reinventar a vida por meio da arte.

Pode ser que a não realização da Semana Graciliano Ramos tenha um motivo especial. Talvez haja o medo de que, celebrando a memória desse grande homem, a população se aproprie de sua crítica, sempre atual, a determinadas práticas que insistem em se perpetuar, sobretudo na política de Palmeira dos Índios: "Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados".

domingo, 9 de outubro de 2011

A Palmeirada

A segunda década do século XXI foi inaugurada ao som de protestos que derrubaram governos ditatoriais no Oriente Médio. Em tais mudanças, as redes sociais, especialmente o Facebook, tiveram uma importância crucial, dando voz e capacidade de organização a sujeitos oprimidos por décadas de autoritarismos e corrupções. No mundo todo, eventos dessa natureza têm animado pessoas a reunirem-se nas redes sociais em torno da promoção de mudanças várias. Em Alagoas, merece destaque A Palmeirada – grupo de amigos de Palmeira dos Índios, criado há três meses no referido Facebook, contando, até o momento, com quase mil membros.
Do ponto de vista linguístico, "A Palmeirada"  (tanto o grupo quanto o nome – obra do entusiasmado cineasta Herbert Torres) é um daqueles substantivos coletivos que os falantes do Português criam buscando resolver uma aflição comunicativa – como sugeriu John Robert Schitz em seu oportuno texto sobre "Coletivos inventados". No caso em destaque, a aflição diz respeito ao critério de identificação dos participantes com o grupo: quem é palmeirense? Quem nasceu e vive até hoje na cidade? Quem só nasceu e, depois, foi-se embora? Quem nasceu alhures e depois nela se fixou? Quem passou por ela e a amou, acabou tecendo relações? O nome "A Palmeirada" resolve tais inquietações, pois ele expressa a reunião de pessoas que portam essas mais diversas características, reflexo da diversidade que é Palmeira dos Índios, "uma cidade essencialmente brasileira", conforme a opinião de um de seus mais ilustres cidadãos: Graciliano Ramos (curiosamente, a população Xukuru-Kariri, parcela historicamente negada pela ideologia dominante, ainda não se fez representar por nenhum membro que afirmasse a sua etnicidade indígena).
Entre a troca de mensagens, fotografias de distintas épocas, memórias e farpas (como é previsível na convivência entre os seres humanos), o pensamento concreto (do latim concrescere = crescer junto) tem conseguido prevalecer sobre a empobrecida compreensão abstrata (do latim abstrahere = separar, dividir, partir) da realidade social que os membros do grupo "curtem" e "compartilham" naquele espaço virtual.
Numa época de globalização sem precendentes, A Palmeirada, do seu jeito, reafirma o conceito de identidade, do modo que ele foi entendido pelo sociólogo Manuel Castells: "um núcleo resistente à homogeneização". Nesse sentido, trata-se de um indubitável ganho para Palmeira dos Índios: num Estado onde menos de 20% da população acessa a internet (segundo dados do IBGE, Alagoas ocupa o último lugar no ranking da Federação), surge, com A Palmeirada, a possibilidade de seus integrantes, utilizando um suporte que está ao seu alcance, como o Facebook, construírem uma nova identidade capaz de redefinir um modelo de sociedade palmeirense. Ao fazê-lo, A Palmeirada garantirá, também, a busca da transformação de toda a estrutura (cultural/política/econômica) dessa mesma sociedade.
Que os seus membros sejam sábios em aproveitar esse potencial...