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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Palmeira dos Índios: Princesa do... Sertão?

Frequentemente encontro pessoas questionando o porquê de Palmeira dos Índios ser chamada de "Princesa do Sertão", se ela está no Agreste de Alagoas. Uma explicação conhecida para o fato, sugerida pelos pesquisadores Adelson Lopes, Tiago Silva e Ana Cristina, no livro "Mata da Cafurna: Tradição e Cultura do Povo Xukuru-Kariri", de 2008, diz que o cognome, dado à cidade no século XX, se justifica, além da referência à grande importância que teve o município na economia alagoana, por causa de a cidade ser localizada, segundo a classificação do IBGE, na Zona Fisiográfica do Sertão, mesmo que situada na Mesorregião do Agreste de Alagoas.

Podemos concordar em parte com o argumento desses autores, mas é necessário destacar que a hipótese da classificação atual seria plausível somente se Palmeira dos Índios tivesse sido coerentemente cognominada "Princesa do Agreste". Como não foi o caso, apuremos de onde veio o apelido que dá a ideia de que Palmeira dos Índios é sertão. Teria sido um erro geográfico dos que, a princípio, assim se referiram a ela?

Segundo Dimas Oliveira, foi Rui Barbosa (1849-1923) quem cunhou o título, em 25 de dezembro de 1919, para render homenagem à cidade de Feira de Santana. Depois desse episódio, como aconteceu em Palmeira dos Índios a partir de então, cidades do hinterland de outros estados passaram a receber esse mesmo epíteto: Caetité e Conceição do Coité, também na Bahia; Nossa Senhora da Glória, em Sergipe; Serra Talhada, em Pernambuco; Carolina, Caxias e Colina, no Maranhão. Até o sudeste tem também as suas "Princesas do Sertão": Montes Claros e Uberaba, em Minas Gerais; e São José do Rio Preto, em São Paulo.

Devemos ter em mente que o "sertão" empregado no discurso de Rui Barbosa durante a sua segunda campanha à presidência da República, é uma denominação que já foi muito comum para designar qualquer lugar interiorano, distante do litoral, como sugere essa palavra em sua estrutura etimológica e em sua aplicação, antes que o IBGE dividisse o Estado de Alagoas nas zonas fisiográficas da Mata, do Agreste e do Sertão – até porque este instituto só seria criado em 1937.

Segundo Antônio Geraldo da Cunha, "agreste" é um adjetivo "relativo ao campo". Este filólogo compartilha com a definição de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, ao dizer que "sertão" significa a "região agreste, distante das povoações ou das terras cultivadas", mas adiu que o termo seja de origem etimológica obscura.

Gustavo Barroso encontrou a etimologia da palavra "sertão" no Dicionário da língua bunda de Angola, de 1804, elaborado pelo frei Bernardo Maria de Carnecatim: o verbete "muceltão" e sua corruptela "certão" significam locus mediterraneus, ou seja, "lugar no meio de terras". A historiadora Walnice Nogueira Galvão acrescentou que "na língua original era sinônimo de 'mato', sentido correntemente usado na África Portuguesa, só depois ampliado para 'mato longe da costa'. Os portugueses levaram-na para sua pátria e logo trouxeram-na para o Brasil, onde teve longa vida, aplicação e destino literário".

O título "Princesa do Sertão", cantado no hino oficial do município e evocado num dos slogans da atual administração, foi algo da tradição da cidade que não escapou da ironia do então prefeito Graciliano Ramos, como se nota no seu famoso relatório de 1930. Ao discorrer sobre a decadência da produção do município, o Mestre Graça asseverou que "o palmeirense afirmava, convicto, que isto era a princesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavacada".

Nada mais atual.



Referências

BARROSO, Gustavo. Vida e história da palavra sertão. Salvador, Núcleo Sertão/UFBA, 1983.

CUNHA, Antônio Geraldo. Dicionário Etimológico Nova Fronteira. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário (Aurélio) da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

GALVÃO,Walnice Nogueira. O Império do Belo Monte. Vida e morte de Canudos. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001.

MOREIRA, Ana Cristina de Lima; PEIXOTO, José Adelson Lopes; SILVA, Tiago Barbosa da. Mata da Cafurna. Tradição e cultura do povo Xukuru-Kariri. Maceió: Catavento, 2008.

OLIVEIRA, Dimas. O epíteto Princesa do Sertão. Folha do Estado, Feira de Santana, 18 set. 2007. Disponível em: <http://oliveiradimas.blogspot.com/2007/09/o-epteto-princesa-do-serto.html>. Acesso em: 19 set. 2007.

RAMOS, Graciliano. (Obra completa, v. 1) Viventes das Alagoas. Rio de Janeiro: Record, 1992.

2 comentários:

  1. Oi,
    sou Rayanne de Minas Gerais sou estudante de letras e pesquiso o sertão em Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa,gostei muito do seu texto mas uma parte dele me chamou muito a atenção e é uma coisa que estou precisando muito. Gostaria de saber se vc leu o livro de Gustavo Barroso da qual está nas referências do seu texto. Estou precisando muito deste livro mas não consegui encontrar em nenhum lugar, assim se vc tiver acesso a ele gostaria de saber se tem como a gente negociar uma forma de vc me mandar este livro de alguma forma. Espero que possa me ajudar, aguardo resposta.
    t+,
    Rayanne.

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  2. Oi, Rayane!
    Tive contato com o livro de Gustavo Barroso na Biblioteca Central da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em 2007, quando estava em minha pesquisa de mestrado sobre o sertão na obra de Graciliano Ramos. Foi a única vez em que tive contato com essa referência... Contudo, no que precisar para a sua pesquisa, não hesite em solicitar. Estando ao meu alcance, será compartido. Um abraço e boas festas!

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