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domingo, 18 de dezembro de 2011

A pitombeira do encontro: um lugar da memória ameaçado de extinção

Nos festejos natalinos de 1927, os olhos de uma normalista maceioense transtornaram o então prefeito eleito da cidade de Palmeira dos Índios, cuja trajetória se tornou um dos mais comentados casos da estreia de um romancista no campo literário. Graciliano Ramos, aos 35 anos de idade, conheceu Heloísa Medeiros, de 17, que se tornaria, menos de dois meses após o ocorrido, a sua segunda esposa.

A moça estava em Palmeira dos Índios a convite do pároco, o padre Macedo, e, enquanto arrecadava donativos para a festa da padroeira, Nossa Senhora do Amparo, topou com o homem de quem receberia as mais sinceras cartas de amor. Na carta de nº 60, temos o seguinte relato do escritor enamorado: "Domingo dei uma volta pela estrada de ferro e à tarde vim pela Pitombeira. Vi a casa onde nos encontramos naquele dia em que vocês andavam cavando galinhas e ovos para Nosso Senhor Jesus Cristo. Recordei os beiços da Nenen Machado, horrivelmente pintados, a aguardente, os cajus, o Chico e o João Pinho. Enquanto pensava nessas coisas, ia conversando com o Audálio e com o dr. Rios (creio que é Rios que ele se chama) a respeito da cocaína, do amor, das estrelas e de almas do outro mundo. À noite estava com os pés doendo. Mas parece que não foi por causa da conversa: deve ter sido efeito da caminhada".

A pitombeira referida no excerto acima era do sítio de Manoel Gomes da Silva, e denominava, naquele tempo, o logradouro onde está localizada. Hoje, a antiga Rua da Pitombeira se chama Manoel Gomes, que teve o terreno desapropriado para se construir, na década de 1940, o Colégio Pio XII. O enorme prédio pertence atualmente à diocese, e serve a encontros de formação, retiros espirituais e eventos congêneres. A pitombeira do encontro ainda está no mesmo lugar, do lado de dentro dos muros do atual Centro de Treinamento Pastoral Pio XII, embora sua existência esteja ameaçada.

É que o velho prédio do Pio XII está em reformas e, como se observa na imagem que ilustra esta matéria, feita pelo engenheiro palmeirense Marcos Parreco, as mudanças também passam pelo corte das árvores que tradicionalmente o entornam. Uma delas é a antiga pitombeira, que nunca deu uma pitomba na vida, mas que é um ponto turístico da cidade, um lugar onde se cruzam as memórias pessoais e de grupos – como ensina o historiador Pierre Nora – e que carece de preservação permanente, não de que lhe ceifem a vida!

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