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domingo, 22 de abril de 2012

Lembranças do "amigo velho"

Há dois anos (parece que foi ontem) um acidente automobilístico silenciava definitivamente a voz inconfundível de Albérico Cordeiro. Morreu ele na situação que mais temia que acontecesse. No entanto, foi-se fazendo aquilo que mais gostava: indo de um canto a outro de Alagoas para conhecer e fiscalizar obras de interesse público espalhadas por todo o Estado. Pereceu do mesmo jeito que viveu.

 

Esse ilustre filho de seu José Correia da Silva e dona Benedita Félix Cordeiro da Silva, natural da cidade de Pilar, era, na verdade, um cidadão do mundo. "Negro comedor de bagre", como ele mesmo se afirmava, vivendo num ambiente de recursos limitados, tendo de trabalhar desde menino, Cordeiro encontrou nos estudos a oportunidade de transformar a sua realidade. Foi candango em Brasília, fazendo a cobertura jornalística da construção da atual capital federal, ainda bem moço, escrevendo para noticiários alagoanos.

 

De inteligência notável, leitor voraz, esmerado no entendimento das obras completas de Machado de Assis e Graciliano Ramos, recolheu desses autores a fina ironia que seria, por toda a vida, a marca (e até motivo de ódio entre seus adversários) de sua personalidade. Como jornalista, Cordeiro exerceu suas atividades profissionais no Correio Brasiliense, no Jornal de Brasília, nas TV's Brasília e Manchete, Jornal de Alagoas e Gazeta de Alagoas. Também foi servidor público civil, trabalhando no Senado Federal e como secretário do Comitê de Imprensa da Câmara dos Deputados. Na vida sindical, foi diretor do Sindicato dos Jornalistas de Brasília e presidente da Associação dos Publicitários de Brasília.

 

Era política o sangue que irrigava o seu corpo. Seu espírito era a política. "Eu sou um animal político!", dizia sempre, apropriando-se da noção aristotélica do zoon politikon. Quando dizia, era com força e compassadamente, batendo as mãos no peito, às vezes avermelhando e esbugalhando os olhos, alterando as veias do pescoço e tonificando a última sílaba da palavra "política" em vez da segunda: "Um animal politicó!".

 

Por alagoas, Cordeiro teve cinco mandatos de deputado federal. Participou destacadamente da Assembleia Nacional Constituinte, quando, em 1987, liderou as bancadas das regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste no ato de repúdio aos argumentos do economista Mailson da Nóbrega, então secretário-geral do Ministério da Fazenda, que propunha uma reforma tributária que, segundo os parlamentares revoltados, investia "contra as populações mais pobres". Cordeiro pediu ao então presidente da República, José Sarney, a demissão do secretário. O caso foi lembrado por Nóbrega em seu livro "O Brasil em transformação", publicado em 2000.

 

Cordeiro vivia na capital e amava o sertão. Conhecia pessoas, as árvores, os bichos, e até as pedras do sertão. Fosse em tais pedras, ou até nas antigas chaminés à beira da estrada, em Satuba, lá estava pintado o seu slogan, em letras garrafais, pretas, sobre o branco: "Trabalha". Sem se filiar fielmente a nenhuma ideologia partidária, personalista no limiar da paranóia, esteve sempre ao lado do poder, tanto durante o regime militar como no governo democrático-popular do presidente Lula. Habilidoso, foi um dos últimos representantes de um tipo de político que fazia o público ir ao seu comício simplesmente pelo prazer de ouvi-lo falar, sem necessidade de nenhuma outra atração.

 

Convivi com Cordeiro quando ele foi prefeito de Palmeira dos Índios. O "forasteiro", como foi chamado, acabou sendo o preferido por duas vezes consecutivas (com recorde histórico de votos na segunda vez), ao invés dos autoproclamados "filhos da terra", os mesmos responsáveis pelo desmantelamento de Palmeira dos Índios. Em seu segundo mandato, participei como secretário de Cultura. Uma honra para mim. Sem falar que foi uma escola, uma faculdade! Para uns, como eu, a famosa gaitada de Cordeiro tinha um efeito catártico. Para outros, era o mesmo que levar uma dedada! Posso afirmar que o prefeito era uma figura decididamente estranha, porém muito divertida. Dá para escrever um livro sobre suas histórias. Penso em fazer isso, no futuro! Por enquanto, relatarei apenas uma, que testemunhei no início de 2005.

 

Ao sairmos de uma reunião na prefeitura com o secretariado (o séquito do Cordeiro, melhor dizendo), o prefeito foi abordado por uma senhora que veio lhe fazer uma reclamação: "Prefeito, pelo amor de Deus! Tem uma metralha na minha rua que faz dias que está lá... Estão botando lixo lá, está um horror!". O prefeito dirigiu-se ao seu assessor (e primo materno): "Cirilo, chame aquele rapaz!". O tal rapaz veio, e Cordeiro disse à senhora: "Este aqui é o secretário de Urbanismo". Depois, para o secretário: "Ela lhe dirá algumas palavras!". A senhora contou ao secretário (que puxou do bolso da camisa um papelzinho e uma caneta para tomar nota) o mesmo problema que já havia explicado ao prefeito. "Onde é que a senhora mora?", perguntou o secretário. "Na rua Fulano de Tal", respondeu a senhora. "Ah, prefeito", disse o secretário, "a gente já mandou hoje um caminhão de coleta para essa rua, mas ficou só um tantinho assim de material para recolher", e apontou com o polegar a falange do dedo indicador da mesma mão para ilustrar o "tantinho assim". Cordeiro deu uma gaitada e disse-lhe: "Rá! Rá! Rá! Tantinho assim! Com essa história o meu pai chegou para a dona Benedita e falou: 'É só tantinho assim...'  Ela acreditou. Resultado: está aqui o 'negão', prefeito da Palmeira dos Índios!".

sábado, 21 de abril de 2012

Homem é agredido por seguranças municipais no Mercado do Artesanato Margarida Gonçalves

Mais um caso de agressão praticado por agentes municipais de segurança foi registrado em Arapiraca. Desta vez, a vítima foi Genivaldo José da Silva, 30 anos, oriundo de Recife e funcionário da empresa RM Telecom. A agressão ocorreu na noite deste sábado (21), por volta das 22h30, no Mercado do Artesanato Margarida Gonçalves, durante uma apresentação musical.

Segundo testemunhas, Genivaldo entrou, por engano, no banheiro público feminino, já que não há uma clara indicação de qual seria o feminino ou o masculino. Quando se deu conta de que estava no banheiro errado, dirigiu-se aos agentes de segurança para informar-se sobre qual seria o lugar que procurava. Foi aí que três agentes o abordaram e o agrediram com cacetadas diante das pessoas que assistiam a apresentação, interrompida naquele mesmo momento. A vítima foi socorrida com um sangramento na cabeça.

A PM foi acionada e conduziu a vítima, assim como os acusados, à Central de Polícia para prestarem depoimento.

Essa é a segunda agressão envolvendo agentes municipais de segurança registrada em 24 horas na cidade de Arapiraca. Ontem (20) a vítima foi o jovem Rafael Mariano Cardoso, de 25 anos, agredido no Bairro Novo Horizonte.

Alagoas: história e ficção

Por ocasião da visita do governador Téo Vilela na última quinta-feira (19), faixas colocadas em pontos diversos de Palmeira dos Índios geraram acerbos comentários na cidade. O conteúdo de uma delas, afixada na Praça Moreno Brandão (Praça do Açude), em particular, chama a atenção pelo grave engano histórico noticiado: "Nunca um governador trabalhou tanto pelos palmeirenses, obrigado Téo".

 

Afirmar tal coisa é tentar descaradamente varrer da memória palmeirense tantos sujeitos que, desde tempos remotos, contribuíram para que Palmeira dos Índios tomasse um papel destacado no desenvolvimento de Alagoas. Como ilustração, arrolei alguns exemplos, começando pelo século XIX. Em 1893, o governador Gabino Besouro envidou esforços na construção do paredão do açude do Goiti. Destruído por chuvas torrenciais que caíram em 1918, o paredão foi refeito no governo de Costa Rego, na década de 1920, fazendo com que os palmeirenses utilizassem um material de construção até então desconhecido: o cimento. O mesmo Costa Rego tornou o Estado presente na construção de um dos mais representativos monumentos palmeirenses: a atual Catedral Diocesana.

 

Álvaro Paes, governador natural de Palmeira dos Índios e seu posterior prefeito, considerado honestíssimo pelos seus contemporâneos, foi o grande incentivador, entre 1928 e 1930, da cultura da pinha, a fruta mais característica da produção agrícola palmeirense, símbolo da cidade, hoje em franca decadência.

 

O governador Arnon de Mello, nos anos 1950, em meio ao processo de modernização econômica e cultural do Brasil, rasgou um novo caminho para unir a capital e o sertão alagoano: a atual BR-316, que liga Maceió a Palmeira dos Índios. Foi a primeira rodovia asfaltada de Alagoas. Falando em asfalto, é disso que o governo Téo e a administração James Ribeiro mais se orgulham: terem asfaltado o centro da cidade. Nos últimos quatro anos, aliás, não se fala em outra novidade no maravilhoso mundo dos tucanos!

 

Em matéria de insegurança, como é bem sabido e alardeado, nós, alagoanos, somos os campeões. A desgraça se reflete em Palmeira dos Índios, que vive um clima de pesar por tantas mortes violentas de pessoas de todas as idades e classes sociais. Junto a outros péssimos indicadores sociais e econômicos, a cidade hoje enfrenta o que estudiosos chamam de "sofrimento populacional".

 

Para finalizar, faço memória dos feitos na educação, que é a área onde trabalho como servidor público do Estado. No ano de 1960, Sebastião Marinho Muniz Falcão inaugurou o Colégio Estadual Humberto Mendes, o maior estabelecimento de ensino da rede pública estadual no município, que, desde então, tem formado gerações de palmeirenses, sendo também referência para estudantes de outras cidades. Mais antigo que o chamado "Gigante do Asfalto" (apelido do Humberto Mendes) é a Escola Estadual Graciliano Ramos, aberta em 1956 pelo mesmo Muniz Falcão. Ao todo, Palmeira dos Índios conta com 16 escolas estaduais. Nenhuma delas foi aberta por Téo Vilela.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Palmeira dos Índios - Aldeia Urbana

A cidade de Palmeira dos Índios tem a sua história ligada, como o seu próprio nome sugere, à presença de povos indígenas em seu território. Sua origem, na segunda metade do século XVIII, é resultado de um segundo ciclo de colonização lusitana no Brasil, implementado de acordo com os moldes da política de ocupação territorial arquitetada pelo Marquês de Pombal, primeiro-ministro de Portugal durante o reinado de Dom José I.

 

Pombal regulamentou, entre 1755 e 1757, o funcionamento das antigas missões, proclamando a liberdade definitiva dos índios e dando fim à administração temporal destes pelos missionários nas aldeias, algo que a Coroa portuguesa havia concedido em 1655. Como explicou o historiador Sérgio Buarque de Holanda, "As maiores destas seriam elevadas a vilas, as menores, a lugares; até que os índios se mostrassem capazes deviam ter um diretor em cada aldeia, com funções mais de orientação e instrução que de administração". Assim, as aldeias se estruturavam como unidades ordenadoras da vida indígena na colônia.

 

O objetivo desse ciclo específico de expansão colonial era ocupar o interior brasileiro com povoamento efetivo, arregimentando em locais fixos índios de diferentes etnias, legalmente obrigados a falar a língua portuguesa, a se vestirem e a serem nomeados como os portugueses, tornando-os de "desgraçados homens" por esta forma "crisãos, civis e ricos". O projeto, como se sabe, fracassou, principalmente porque o modelo de produção econômica foi substituído por outro, definido pelo trato com o gado: as antigas sesmarias deram lugar às fazendas.

 

À época da proclamação da Independência, os índios de Palmeira dos Índios recuperaram as terras invadidas pelos colonos criadores de gado numa campanha chefiada pelo diretor indígena Diogo José Pinto Cabral, mas, 5 décadas depois, o governador Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, barão de Abiaí, deu fim a todos os aldeamentos alagoanos, declarando extintos, por conseguinte, todos os índios da então Província. Mais oitenta anos seriam necessários para que os índios palmeirenses recuperassem o direito de ter um espaço apropriado para a preservação de seus usos, costumes e tradições. Nesse ínterim, eles viram suas antigas aldeias, especialmente a Cafurna e o Xucurus, se transformarem em bairros, inscritos no perímetro urbano do município.

 

Os xukuru-kariri, como desde os anos 1950 se denominam os grupos indígenas existentes em Palmeira dos Índios, chegaram à segunda década do século XXI divididos em oito aldeamentos (Fazenda Canto, Mata da Cafurna, Cafurna de Baixo, Coité, Serra do Amaro, Capela, Boqueirão e Monte Alegre), sendo que diversos deles ainda resistem na periferia urbana da cidade, nos mesmos lugares onde outrora foram suas aldeias, embriões do povoamento palmeirense, expostos às vulnerabilidades que tais lugares comportam.

 

Foram justamente os indígenas citadinos os que procurei registrar no ensaio etnográfico que ilustra esta matéria, e que estará exposto de 24 a 27 de abril no Campus III da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL). São personagens que resistem na defesa de sua identidade, pois encontram nela um núcleo resistente à homogeneização que lhes foi imposta desde que a colonização do território ali se instalou. Sua presença faz com que Palmeira dos Índios se configure verdadeiramente como uma aldeia urbana no interior de Alagoas.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Roma - A vida e os imperadores


Visitei, no mês passado, a exposição "Roma – a vida e os imperadores", em cartaz desde 25 de janeiro no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateubriand (MASP), que conta com 370 peças originais pertencentes a instituições italianas importantes, como o Museu Arqueológico Nacional de Florença, o Museu Nacional Romano, o Museu Nacional de Nápoles, o Antiquário de Pompeia, o Museu Arqueológico de Fiesole e a Galeria Uffizi. É a primeira vez que o acervo sai da Itália, marcando a abertura da programação do MASP no Momento Itália Brasil 2011-2012.



A exposição traz joias, afrescos, mosaicos, esculturas, vestimentas e objetos da Roma antiga, levando o público a uma viagem ao longo de três séculos, desde o chamado período tardio da República e primeiros séculos do Império, do general Júlio César (49 a.C. - 44 a.C.) e seu filho adotivo Otávio Augusto (27 a.C. – 14 a.C.), até Septímio Severo e seu filho Caracala, que reinaram entre os anos 193 e 217 d.C.


Entre os destaques, estão três paredes com afrescos da Vila de Pompeia (destruída durante uma grande erupção do vulcão Vesúvio, no ano 79 d.C.); as estátuas do deus Júpiter (versão romana de Zeus, senhor dos deuses), da imperatriz Lívia (esposa de Augusto) e da deusa Ísis (divindade de origem egípcia, posteriormente romanizada); a cabeça colossal, em mármore, de Júlio César; máscaras teatrais; a escultura de Calígula; a armadura de um gladiador; desenhos do Coliseu; uma lamparina de ouro; e cerca de sessenta joias.

 

Organizada em quatro núcleos expositivos, foram selecionados em cada compartimento os exemplares arqueológicos mais representativos de cada fase. O primeiro aborda César, Otávio Augusto e o nascimento do Império. O segundo núcleo contextualiza o luxo e a opulência de um dos imperadores romanos mais controversos: Nero. O terceiro compartimento retrata o apogeu de Roma. Por fim, a última parte da exposição explora as variadas origens dos costumes romanos e revela um Império multicultural. O momento mais significativo desse império multiétnico foi alcançado no reinado do africano Septímio Severo, casado com uma princesa síria.


"Além do poder e das manifestações, existe a vida de todos os dias, dos ricos, das elites das cidades, dos artesãos, dos escravos, dos camponeses", explica Guido Clemente, professor de História Romana da Universidade de Florença e curador da exposição. "A mostra ilustra com inúmeras peças de grande variedade este quadro fascinante: a casa ricamente coberta de afrescos, os objetos de luxo que a decoravam, bronzes, mármores, objetos de uso cotidiano; o luxo da mesa com seus objetos de prata; os penteados e ornamentos femininos, aneis, braceletes, colares, camafeus e entalhes extraordinários. A economia, com as rotas dos navios, as moedas de ouro e de prata que circulavam em todo lugar com a efígie dos imperadores; por fim, o trabalho, os instrumentos da agricultura e das profissões e da vida das famílias, em seu dia a dia, com as vasilhas de terracota, as crianças, os jogos, as mulheres. A mostra é portanto um afresco fascinante, rico, complexo, que nos transporta em um mundo que percebemos longínquo, mas ao mesmo tempo também próximo a nós, que somos seus herdeiros", acrescenta o curador.


A exposição segue até o dia 22 de abril, e é uma excelente oportunidade de se fugir da monotonia dos livros didáticos e mergulhar de corpo e alma no universo da cultura romana.


Informações gerais:


Roma - A Vida e os Imperadores


370 peças e obras originais recontam fatos e costumes do período tardio da República e primeiros séculos do Império Romano. 


Local: Galeria Clemente de Faria, 1 e 2 subsolos do MASP (Avenida Psulista, 1578).


Período: 25 de janeiro a 22 de abril de 2012.


Horários: Terças a domingos e feriados, das 11h às 18h. Quintas-feiras das 11h às 20h. A bilheteria fecha sempre 30 minutos antes.


Ingressos: R$ 15,00. Estudantes, professores e aposentados com comprovantes pagam R$ 7,00. Visitantes com idades até 10 anos e acima de 60 anos de idade têm entrada gratuita.



terça-feira, 3 de abril de 2012

Muito mais do que contar uma história

Há dois milênios é repetido o relato do nazareno que, por amor, ofertou a própria vida para salvar a humanidade. O drama dessa paixão nos é bem conhecido, porque somos uma civilização embebida de cristianismo e, sobretudo entre a nação nordestina, preservamos a tradição de renová-lo não somente no ritual religioso, durante a missa ou noutras formas de culto, como nas ruas, nas praças, montanhas – enfim, ao ar livre, caminhante, peregrino.

No município de Arapiraca, o cenário do recontar teatral é o Morro da Massaranduba, lugar de devotadas romarias, considerado santo desde o século XIX. Em sua 17ª edição, o espetáculo arapiraquense da Paixão de Cristo, o maior evento teatral de Alagoas, é um espaço social de produção artística de subida qualidade e, mais que isso, de ressignificação de vidas. A peça, que já contou com atores de reconhecimento nacional, sempre teve como base de seu elenco pessoas da comunidade local. São estudantes, agricultores, trabalhadores do comércio, donas de casa, gente simples que se identifica com o povo com o qual viveu Jesus. "O empenho do elenco é o que faz deste espetáculo um grande acontecimento para a cidade", explica Wagno Godez, produtor executivo e artístico.

"Eu fico muito feliz de participar dessa iniciativa, principalmente fora dos grandes pólos urbanos do Brasil. O teatro brasileiro tem as suas raízes muito fortes no teatro religioso, desde o início da ocupação portuguesa, com os jesuítas. Para quem é ator, é uma experiência quase de voltar às raízes", disse Thiago Fragoso, quando interpretou Pôncio Pilatos, há dois anos. Desde o ano passado, todos os artistas envolvidos no evento são alagoanos, fato que valoriza os talentos do Estado ao dar-lhes a oportunidade de se apresentarem ao grande público (cerca de 40 mil pessoas prestigiam o evento). "A gente tem que dar a oportunidade a outras pessoas. Tem que fazer também com que esse ciclo de atores seja rodado aqui em Arapiraca. Que venham outras pessoas com talento, para fazer o seu papel", enfatiza Marcos Cordeiro, que fez as vezes de Cristo por cinco anos (2005-2010) e hoje é coordenador de elenco ao lado de Julliany Silva. 

Um espetáculo que se propõe a celebrar um amor apaixonante, apaixonado, incondicional, includente, estendido a todo e qualquer ser humano, ser vivo ou forma de existência, não poderia, coerentemente, cultivar valores e atitudes que contradissessem esse mesmo amor. O espetáculo arapiraquense abraça o plural, o diverso, o arriscado (justamente a matéria-prima que Jesus escolheu para construir o seu Reino) para a experiência do convívio. "As emoções começam nos ensaios, na reunião com os amigos, na muvuca dentro do ônibus, e no superar o cansaço físico no morro! Na medida em que se aproxima a data do espetáculo, maior é a responsabilidade de não errar as marcações e entrar mais na pele do personagem", relata o ator Paulo Alexandre. 

A peça envolve em sua magia até os mais céticos, como é o caso do experiente ator Julien Costa, o Pilatos deste ano, que ressalta a particularidade do encanto existente em Arapiraca: "Apesar da encenação da paixão de Cristo acontecer em vários lugares do país, no Morro da Massaranduba tem um sabor especial: é um lugar místico cercado de peregrinação, pagadores de promessa, homens, mulheres e crianças, imbuídos de fé e crenças, um lugar em que até incrédulos, como eu, sentem uma energia cósmica. De pés descalços, sob o sol escaldante ou no frio da noite, no Morro Santo é momento de paz, reflexão, um mergulho interior, anterior a qualquer pré-conceito ou ateísmo. Um mundo moderno/atual e apocalíptico. Nos permitamos a um instante de paz interior no Morro Santo da Massaranduba".

Como se percebe, a Paixão de Cristo em Arapiraca é muito mais do que contar uma história...