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terça-feira, 3 de abril de 2012

Muito mais do que contar uma história

Há dois milênios é repetido o relato do nazareno que, por amor, ofertou a própria vida para salvar a humanidade. O drama dessa paixão nos é bem conhecido, porque somos uma civilização embebida de cristianismo e, sobretudo entre a nação nordestina, preservamos a tradição de renová-lo não somente no ritual religioso, durante a missa ou noutras formas de culto, como nas ruas, nas praças, montanhas – enfim, ao ar livre, caminhante, peregrino.

No município de Arapiraca, o cenário do recontar teatral é o Morro da Massaranduba, lugar de devotadas romarias, considerado santo desde o século XIX. Em sua 17ª edição, o espetáculo arapiraquense da Paixão de Cristo, o maior evento teatral de Alagoas, é um espaço social de produção artística de subida qualidade e, mais que isso, de ressignificação de vidas. A peça, que já contou com atores de reconhecimento nacional, sempre teve como base de seu elenco pessoas da comunidade local. São estudantes, agricultores, trabalhadores do comércio, donas de casa, gente simples que se identifica com o povo com o qual viveu Jesus. "O empenho do elenco é o que faz deste espetáculo um grande acontecimento para a cidade", explica Wagno Godez, produtor executivo e artístico.

"Eu fico muito feliz de participar dessa iniciativa, principalmente fora dos grandes pólos urbanos do Brasil. O teatro brasileiro tem as suas raízes muito fortes no teatro religioso, desde o início da ocupação portuguesa, com os jesuítas. Para quem é ator, é uma experiência quase de voltar às raízes", disse Thiago Fragoso, quando interpretou Pôncio Pilatos, há dois anos. Desde o ano passado, todos os artistas envolvidos no evento são alagoanos, fato que valoriza os talentos do Estado ao dar-lhes a oportunidade de se apresentarem ao grande público (cerca de 40 mil pessoas prestigiam o evento). "A gente tem que dar a oportunidade a outras pessoas. Tem que fazer também com que esse ciclo de atores seja rodado aqui em Arapiraca. Que venham outras pessoas com talento, para fazer o seu papel", enfatiza Marcos Cordeiro, que fez as vezes de Cristo por cinco anos (2005-2010) e hoje é coordenador de elenco ao lado de Julliany Silva. 

Um espetáculo que se propõe a celebrar um amor apaixonante, apaixonado, incondicional, includente, estendido a todo e qualquer ser humano, ser vivo ou forma de existência, não poderia, coerentemente, cultivar valores e atitudes que contradissessem esse mesmo amor. O espetáculo arapiraquense abraça o plural, o diverso, o arriscado (justamente a matéria-prima que Jesus escolheu para construir o seu Reino) para a experiência do convívio. "As emoções começam nos ensaios, na reunião com os amigos, na muvuca dentro do ônibus, e no superar o cansaço físico no morro! Na medida em que se aproxima a data do espetáculo, maior é a responsabilidade de não errar as marcações e entrar mais na pele do personagem", relata o ator Paulo Alexandre. 

A peça envolve em sua magia até os mais céticos, como é o caso do experiente ator Julien Costa, o Pilatos deste ano, que ressalta a particularidade do encanto existente em Arapiraca: "Apesar da encenação da paixão de Cristo acontecer em vários lugares do país, no Morro da Massaranduba tem um sabor especial: é um lugar místico cercado de peregrinação, pagadores de promessa, homens, mulheres e crianças, imbuídos de fé e crenças, um lugar em que até incrédulos, como eu, sentem uma energia cósmica. De pés descalços, sob o sol escaldante ou no frio da noite, no Morro Santo é momento de paz, reflexão, um mergulho interior, anterior a qualquer pré-conceito ou ateísmo. Um mundo moderno/atual e apocalíptico. Nos permitamos a um instante de paz interior no Morro Santo da Massaranduba".

Como se percebe, a Paixão de Cristo em Arapiraca é muito mais do que contar uma história...

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