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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Palmeira dos Índios - Aldeia Urbana

A cidade de Palmeira dos Índios tem a sua história ligada, como o seu próprio nome sugere, à presença de povos indígenas em seu território. Sua origem, na segunda metade do século XVIII, é resultado de um segundo ciclo de colonização lusitana no Brasil, implementado de acordo com os moldes da política de ocupação territorial arquitetada pelo Marquês de Pombal, primeiro-ministro de Portugal durante o reinado de Dom José I.

 

Pombal regulamentou, entre 1755 e 1757, o funcionamento das antigas missões, proclamando a liberdade definitiva dos índios e dando fim à administração temporal destes pelos missionários nas aldeias, algo que a Coroa portuguesa havia concedido em 1655. Como explicou o historiador Sérgio Buarque de Holanda, "As maiores destas seriam elevadas a vilas, as menores, a lugares; até que os índios se mostrassem capazes deviam ter um diretor em cada aldeia, com funções mais de orientação e instrução que de administração". Assim, as aldeias se estruturavam como unidades ordenadoras da vida indígena na colônia.

 

O objetivo desse ciclo específico de expansão colonial era ocupar o interior brasileiro com povoamento efetivo, arregimentando em locais fixos índios de diferentes etnias, legalmente obrigados a falar a língua portuguesa, a se vestirem e a serem nomeados como os portugueses, tornando-os de "desgraçados homens" por esta forma "crisãos, civis e ricos". O projeto, como se sabe, fracassou, principalmente porque o modelo de produção econômica foi substituído por outro, definido pelo trato com o gado: as antigas sesmarias deram lugar às fazendas.

 

À época da proclamação da Independência, os índios de Palmeira dos Índios recuperaram as terras invadidas pelos colonos criadores de gado numa campanha chefiada pelo diretor indígena Diogo José Pinto Cabral, mas, 5 décadas depois, o governador Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, barão de Abiaí, deu fim a todos os aldeamentos alagoanos, declarando extintos, por conseguinte, todos os índios da então Província. Mais oitenta anos seriam necessários para que os índios palmeirenses recuperassem o direito de ter um espaço apropriado para a preservação de seus usos, costumes e tradições. Nesse ínterim, eles viram suas antigas aldeias, especialmente a Cafurna e o Xucurus, se transformarem em bairros, inscritos no perímetro urbano do município.

 

Os xukuru-kariri, como desde os anos 1950 se denominam os grupos indígenas existentes em Palmeira dos Índios, chegaram à segunda década do século XXI divididos em oito aldeamentos (Fazenda Canto, Mata da Cafurna, Cafurna de Baixo, Coité, Serra do Amaro, Capela, Boqueirão e Monte Alegre), sendo que diversos deles ainda resistem na periferia urbana da cidade, nos mesmos lugares onde outrora foram suas aldeias, embriões do povoamento palmeirense, expostos às vulnerabilidades que tais lugares comportam.

 

Foram justamente os indígenas citadinos os que procurei registrar no ensaio etnográfico que ilustra esta matéria, e que estará exposto de 24 a 27 de abril no Campus III da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL). São personagens que resistem na defesa de sua identidade, pois encontram nela um núcleo resistente à homogeneização que lhes foi imposta desde que a colonização do território ali se instalou. Sua presença faz com que Palmeira dos Índios se configure verdadeiramente como uma aldeia urbana no interior de Alagoas.

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