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quinta-feira, 24 de maio de 2012

20 anos sem Luiz B. Torres

Há exatos 20 anos, falecia no Rio de Janeiro o escritor alagoano Luiz de Barros Torres. Conterrâneo de Graciliano Ramos, Luiz B. Torres (como tornou-se mais conhecido) é uma das personagens mais importantes da história de Palmeira dos Índios, onde estabeleceu-se definitivamente em 1943, aos 17 anos de idade.

 

Artista multifacetado, Luiz B. Torres escreveu romances, contos, crônicas, poesias e até histórias em quadrinhos. Jogou no CSE; comerciou no centro da cidade, na Casa São Paulo, instalada no mesmo local onde funcionou a Loja Sincera, que pertenceu ao Mestre Graça; foi vocalista de um grupo musical chamado "Malucos do Ritmo", que promovia e animava saraus e serestas pela região. Também dirigiu peças de teatro, tendo revelado o talento do ator Jofre Soares, presente em todas elas.

 

Por demais envolvido com Palmeira dos Índios, sem dúvida Luiz B. Torres foi uma das pessoas que mais amaram essa cidade. Contudo, entre os que mais a amaram, ele foi quem mais expressou todo o amor que sentia, através de seu engajamento: foi co-autor da bandeira e do hino oficiais do município; fundador do Teatro Amador de Palmeira dos Índios (TAPI), do Centro Literário Palmeirense, da Companhia Telefônica de Palmeira dos Índios (mais tarde encampada pela antiga TELASA), do Lions Clube, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e do Museu Xucurus de História, Artes e Costumes. Na política, trouxe à cidade o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o Partido Democrático Cristão (PDC) e integrou o Movimento Renovador, que deu fim ao poder de antigas oligarquias que comandavam o município. Escreveu o estatuto da Fundação de Amparo ao Menor (FUNDANOR) e o projeto de criação da Diocese de Palmeira dos Índios, aprovado pelo Papa João XXIII. Reativou a Sociedade São Vicente de Paulo, sendo lembrado como um dos maiores vicentinos que a cidade teve.

 

Na década de 1970, quando enveredou pelo mundo literário, concebeu a Lenda de Tilixi e Txiliá para explicar simbolicamente a origem da cidade. Deu a ela o consagrado epíteto "Cidade do Amor" (embora a atual onda de violência contradiga a idealização). Luiz B. Torres deu uma grande contribuição à historiografia local, realizando pesquisas arqueológicas, antropológicas e históricas, produzindo um material que é referência obrigatória em qualquer estudo sério sobre Palmeira dos Índios.

 

Reconhecido com homenagens diversas pelo seu valoroso trabalho historiográfico-literário, tornou-se sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, sendo também premiado com a medalha do "Mérito Cultural" pela Fundação Teatro Deodoro. Em Quebrangulo, sua cidade-natal, recebeu o título de "Personalidade do Ano 1987", e recebeu de Igaci o título de "Cidadão Benemérito". Sua maior condecoração foi a "Medalha do Mérito" concedida pela Fundação Joaquim Nabuco, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à cultura nordestina e brasileira.

 

Em Palmeira dos Índios, as homenagens públicas se resumem a tomar-lhe emprestado o nome para o antigo prédio da TELASA e para uma escola municipal na comunidade de Vila Nova. O reconhecimento que desejava nunca veio, pois Luiz B. Torres jamais recebeu o título de cidadão do lugar ao qual dedicou toda a sua vida.

 

Sua principais obras: "Procissão dos miseráveis", "Estou baleado. Me acudam!", "A terra de Tilixi e Txiliá – Palmeira dos Índios nos Séculos XVIII e XIX", "Os índios xucuru e kariri em Palmeira dos Índios" e "Roteiro Sentimental de Graciliano Ramos" (este último em co-autoria com Ivan Barros).

terça-feira, 8 de maio de 2012

Alagoas: cangaceira velha de guerra

Você já ouviu falar do Tenente João Bezerra? Esse ilustre cidadão pernambucano foi marcante na história da briosa Polícia Militar de Alagoas, considerado um heroi da corporação e nacionalmente reconhecido por ter dado fim ao bando de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Nesse, com certeza, você já deve ter ouvido falar.

A não ser por emprestar o nome ao 3.º BPM, localizado em Arapiraca (vide: http://www.pm.al.gov.br/3bpm/joao.html), não se conhece muitas homenagens ao Tenente João Bezerra, primo do notório "cangaceiro-cavalheiro" Antônio Silvino, com quem aprendeu a atirar. Já a figura de Lampião habita o imaginário brasileiro, caracteriza a nação nordestina e é uma marca turístico-cultural que agrega valor à economia do Estado. Como explicar que um bandido tenha mais fama (de heroi, inclusive!) do que aquele que deu fim ao banditismo como fenômeno endêmico da nossa região?

Para começo de conversa, observe as vestimentas da tropa comandada pelo Tenente João Bezerra, na fotografia que ilustra esta matéria. Estão reunidos na cena os componentes da volante, tendo ao centro a cabeça do "Rei do Cangaço", exposta na escadaria da prefeitura de Piranhas, logo após o massacre de Angicos. Repare que a roupa dos soldados é a mesma que os cangaceiros tipicamente vestiam. Segundo a descrição de Graciliano Ramos, cronista da época, "Quando Lampião esteve no município de Palmeira dos Índios, onde se demorou alguns dias mandando bilhetes para a cidade e sem poder entrar nela, trazia mais de cem homens que não se escondiam na capoeira nem transitavam em veredas. Corriam pela estrada real, bem montados, espalhafatosos, pimpões, chapéus de couro enfeitados de argolas e moedas, cartucheiras enormes, alpercatas que eram uma complicação de correias, ilhós e fivelas, rifles em bandoleira, lixados, azeitados, alumiando".

Mas a semelhança entre cangaceiros e polícia ia além da vestimenta. Se, por um lado, Lampião cometia seus crimes desafiando a lei e a ordem, a polícia também cometia esses mesmos crimes, só que amparada pela lei e sustentando a mesma ordem. A gente poderosa da época – quase sempre um coronel safado a mandar, assassino e ladrão – manifestava publicamente, diante da devastação causada pelo "lampionismo", a sua indignação, enquanto pedia verbas do governo federal para combater os cangaceiros. Por debaixo dos panos, contudo, os chefes políticos faziam acordos com os chefes das gangues, vendiam-lhes armamentos e contratavam seus serviços para eliminarem desafetos e se apossarem de terras abandonadas.

Ora, a julgar pelos métodos presentemente adotados pelos bandidos que apavoram o Estado e o colocam no topo da lista dos mais violentos do Brasil, podemos afirmar convictamente que uma coisa é ter se dado um fim em Lampião; outra coisa é se ter acabado com o cangaço na região.


O mais otimista (ou, como diria o saudoso Paulo Francis, "pessimista mal informado") neste Estado de calamidades é o governador Téo Vilela, que afirmou nesta terça-feira (8 de maio) o seguinte: "a violência estagnou no meu governo e tenho confiança de que iremos vencê-la". Com uma crença dessas, não se pode levar o governador a sério. Estamos reféns da criminalidade. O cangaço está vivinho em Alagoas!