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sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Rio + Social

Convidados pelo projeto Planeta Sustentável (Editora Abril) e pela MTV, participamos, na última terça-feira (19), do evento Rio + Social, paralelo à Conferência das Nações Unidas Sobre Sustentabilidade (Rio + 20). A Rio + Social foi um evento global que deu voz às pessoas que querem mudar o mundo para melhor, reforçando o poder das redes sociais de ampliar a discussão sobre sustentabilidade.

Um evento desse tipo, com esse escopo e objetivo, nunca havia acontecido na América do Sul. Ele uniu líderes digitais e todas as partes interessadas em um encontro global histórico – reforçando a ideia de que as redes sociais podem podem estimular uma discussão construtiva, autêntica e significativa sobre assuntos que são importantes para todos nós.

Tive a honra de fazer meu pronunciamento precedendo a ambientalista Severn-Cullis Suzuki, a menina (hoje uma mulher de 32 anos) que, duas décadas atrás, na ECO-92, emocionou e calou o mundo ao chamar a atenção dos líderes de todas as nações para assumirem a responsabilidade para com a presevação de nossa casa comum: o Planeta Terra.

 

Eis a íntegra do meu discurso:

 

"Boa tarde a todas e todos!

 

Primeiramente, quero agradecer à Rio+Social e ao Planeta Sustentável pela oportunidade de aqui estar e falar neste momento histórico para o mundo.

A ideia de participar deste evento, através da competição que aqui me trouxe, e na qual elaborei uma mensagem inspirada no exemplo de Mahatma Gandhi, surgiu como uma forma de expressar o que não apenas eu, mas diversas pessoas pensam a respeito do nosso papel diante das emergências que nos desafiam e nos chamam à responsabilidade.

Vivo entre as cidades de Palmeira dos Índios e Arapiraca, no agreste de Alagoas, o estado brasileiro com o menor índice de habitantes com acesso à internet, mas onde, apesar das dificuldades, ainda é possível se respirar ar puro.

Compartilho com vocês o anseio de meu povo por um mundo que não globalize somente a economia, mas, antes de tudo, seja globalizada a esperança e a solidariedade.

Parafraseando o que foi cantado pelo poeta Vinicius de Moraes, "é, meus amigos. Nos resta esta certeza: é preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar, de novo, o amor".

Muito obrigado!

Muchas gracias!

Thank you very much!"

 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ariano no lar de Graciliano

– Mestre Suassuna, posso tirar uma foto novamente com o senhor?


– E onde foi que a gente tirou outra antes? – perguntou-me sorridente e acolhedor, como sempre, estendendo-me a mão em cumprimento.


– Em duas oportunidades. A primeira foi no V Congresso Brasileiro de Bioética, em 2004. A segunda, no Festival Literário de Garanhuns, quando lhe dei de presente uma maraca indígena, feita pelos xukuru-kariri daqui, pelos seus 80 anos.


– Ah, eu sabia que lembrava de você de algum lugar...


Assim foi o meu terceiro contato pessoal com o imortal Ariano Suassuna, que visitou ontem (14 de junho) a Casa Museu Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios.


O lugar estava bastante animado. Na véspera, o cineasta Ailton Costa Jr. havia anunciado no Facebook a ilustre presença do autor da peça "O Auto da Compadecida" e do romance "A Pedra do Reino". Para a recepção, a Secretaria de Cultura deu uma guaribada no ambiente, que cheirava a tinta fresca. Afinal, não é todo dia que recebemos a visita de um tão querido imortal da Academia Brasileira de Letras. Seria mau se as privadas do banheiro permanecessem arrebentadas. Santo Ariano, feitor de milagres, que nos faz envidar esforços no sentido de valorizarmos o nosso patrimônio cultural...


Enquanto Ariano não chegava, paciência. Curiosos ajuntavam-se na rua. Todos queriam, ao menos, tirar uma foto com ele. Aproveitei, enquanto isso, o tempo e a disponibilidade do dinâmico secretário de Cultura, Toni Oliveira, para realizar com o mesmo um brainstorming. Colocamos em pauta uma série de propostas a serem encaminhadas nos próximos meses. Santo Ariano, fazedor de milagres...


Estávamos na expectativa da vinda do mestre desde as 10 horas da manhã. Ariano só chegou por volta das 4 da tarde, precedido pela equipe que está produzindo o documentário "Visões do Brasil - O Nordeste de Ariano Suassuna", pelo SESC Nacional. A visita foi rápida, mas satisfez quem esperava por ele. Bastante solícito, dono de uma aura encantadora, o mestre Ariano afirmou ser uma honra sentar-se na mesma cadeira de Graciliano Ramos, e sentir a energia desse importante escritor brasileiro.


A tarde sertaneja de Palmeira dos Índios ficou mais alegre com aquela presença. Santo Ariano, fazedor de milagres, quebrou a rotina de monotonia que caracteriza a cidade nos últimos tempos. Esse cantador sem repente, cangaceiro manso, nobre palhaço frustrado, contador mentiroso de maravilhas, nosso maior professor de história e autoestima, fez-nos, por alguns momentos, acreditar na feliz ilusão de que, realmente, ele guardava de outro momento em sua memória alguma lembrança da gente.


Valeu a visita, mestre Ariano!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Jacinto Silva: o Rei da Fragmentação Rítmica

Início dos anos 1950: era de ouro do rádio. Em Alagoas, a Difusora transmitia um programa de auditório animado por Odete Pacheco. Sobe ao palco um calouro conhecido em sua terra-natal como Bastiãozinho ou Bastião da Goiaba, justamente por causa da música com a qual iria se apresentar ("Vontade de comer goiaba"). A pioneira do rádio alagoano lhe perguntou o nome.
– Sebastião. – respondeu aquele moço franzino.
– Oh, Sebastião... Isso lá é nome de artista? Qual o seu nome todo?
– Sebastião Jacinto da Silva.
– Pronto! Está arranjado! Seu nome agora vai ser Jacinto Silva!
Começava naquele momento a trajetória artística de um dos maiores cantadores e compositores brasileiros.
Jacinto Silva nasceu em 1933, no município de Palmeira dos Índios, num lugar chamado Vila de Canudos (hoje, município de Belém). Ainda menino foi morar na cidade, precisamente na Rua São João, bairro da Ribeira. Foi aí onde esse ilustre filho de dona Joaninha cresceu, tendo contato com versejadores como Chico Nunes, coquistas, emboladores, violeiros, mestres de reisado e de toré, além de outras várias influências da cultura popular sertanejo-nordestina.
Aos 25 anos, deixou Palmeira dos Índios para tentar a sorte no vizinho Estado de Pernambuco. Estabeleceu-se em Caruaru, onde arrumou emprego como fabricante de mosaico, ofício aprendido na cidade-natal. Mas cantar era mesmo o seu forte, fazendo fama no programa "Expresso da Alegria", apresentado pelo radialista e forrozeiro Onildo Almeida, que se tornou seu compadre e parceiro em algumas composições.
Onildo Almeida intermediou a gravação do primeiro disco de Jacinto, um vinil em 78 rotações, emplacando o seu primeiro sucesso: "Chora bananeira". Depois, Jacinto foi para a CBS, gravadora que publicava nomes como Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Marinês e Sua Gente, Osvaldo Oliveira, entre outros. Integrou a Caravana Pau de Sebo, um projeto da CBS que percorreu o Brasil promovendo artistas nordestinos, como Abdias, Coronel Ludugero, João do Pife e Elino Julião.
Considerado o Rei do Coco Sincopado, estilo inventado por ele, no qual a métrica e os compassos poético-musicais eram constantemente desafiados, Jacinto, discípulo de Jackson do Pandeiro, foi consagrado como o senhor absoluto da fragmentação rítmica, tornando-se um dos maiores compositores de forró que surgiram no país. Influenciou artistas como Elba Ramalho, Tom Zé, Xangai, Targino Gondim, Tororó do Rojão, Margareth Menezes, Silvério Pessoa, entre outros. Em Alagoas, bebem de sua fonte os cantores Júlio Uçá, Josenildo Gomes, Jurandir Bozo, Rogério Dias, e os grupos Cumbuca e Arca da Cultura Popular.
Homem alegre, sempre de bem com a vida, Jacinto Silva cantava o cotidiano do nordestino, suas dores, suas alegrias, sua saudade, seus amores. Falecido há 11 anos, sua obra ainda é pouco conhecida entre os alagoanos. Adotado por Pernambuco, nunca esqueceu suas raízes, como bem expressou nos versos da canção intitulada "Onde Canta o Sabiá", evidentemente inspirada no poema "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias:

Minha Palmeira dos Índios
Terra do meu coração
Vou rever os meus amigos
Passear no meu torrão
Vou cantar na vaquejada
Da Princesa do Sertão

Eu tenho muita saudade
De um açude que tem lá
Em Palmeira tem palmeiras
Onde canta o sabiá
Foi em Palmeira dos Índios
Que eu aprendi a cantar

Na Rua da Pitombeira
E na Rua de São João
Eu joguei bola de meia
No campo da estação
Vou voltar pra minha terra
A Princesa do Sertão

Que saudade da Palmeira
Da Serra do Candará
Do Coité e da Cafurna
Das festas boas de lá
Das morenas da Ribeira
E das noites de luar