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terça-feira, 5 de junho de 2012

Jacinto Silva: o Rei da Fragmentação Rítmica

Início dos anos 1950: era de ouro do rádio. Em Alagoas, a Difusora transmitia um programa de auditório animado por Odete Pacheco. Sobe ao palco um calouro conhecido em sua terra-natal como Bastiãozinho ou Bastião da Goiaba, justamente por causa da música com a qual iria se apresentar ("Vontade de comer goiaba"). A pioneira do rádio alagoano lhe perguntou o nome.
– Sebastião. – respondeu aquele moço franzino.
– Oh, Sebastião... Isso lá é nome de artista? Qual o seu nome todo?
– Sebastião Jacinto da Silva.
– Pronto! Está arranjado! Seu nome agora vai ser Jacinto Silva!
Começava naquele momento a trajetória artística de um dos maiores cantadores e compositores brasileiros.
Jacinto Silva nasceu em 1933, no município de Palmeira dos Índios, num lugar chamado Vila de Canudos (hoje, município de Belém). Ainda menino foi morar na cidade, precisamente na Rua São João, bairro da Ribeira. Foi aí onde esse ilustre filho de dona Joaninha cresceu, tendo contato com versejadores como Chico Nunes, coquistas, emboladores, violeiros, mestres de reisado e de toré, além de outras várias influências da cultura popular sertanejo-nordestina.
Aos 25 anos, deixou Palmeira dos Índios para tentar a sorte no vizinho Estado de Pernambuco. Estabeleceu-se em Caruaru, onde arrumou emprego como fabricante de mosaico, ofício aprendido na cidade-natal. Mas cantar era mesmo o seu forte, fazendo fama no programa "Expresso da Alegria", apresentado pelo radialista e forrozeiro Onildo Almeida, que se tornou seu compadre e parceiro em algumas composições.
Onildo Almeida intermediou a gravação do primeiro disco de Jacinto, um vinil em 78 rotações, emplacando o seu primeiro sucesso: "Chora bananeira". Depois, Jacinto foi para a CBS, gravadora que publicava nomes como Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Marinês e Sua Gente, Osvaldo Oliveira, entre outros. Integrou a Caravana Pau de Sebo, um projeto da CBS que percorreu o Brasil promovendo artistas nordestinos, como Abdias, Coronel Ludugero, João do Pife e Elino Julião.
Considerado o Rei do Coco Sincopado, estilo inventado por ele, no qual a métrica e os compassos poético-musicais eram constantemente desafiados, Jacinto, discípulo de Jackson do Pandeiro, foi consagrado como o senhor absoluto da fragmentação rítmica, tornando-se um dos maiores compositores de forró que surgiram no país. Influenciou artistas como Elba Ramalho, Tom Zé, Xangai, Targino Gondim, Tororó do Rojão, Margareth Menezes, Silvério Pessoa, entre outros. Em Alagoas, bebem de sua fonte os cantores Júlio Uçá, Josenildo Gomes, Jurandir Bozo, Rogério Dias, e os grupos Cumbuca e Arca da Cultura Popular.
Homem alegre, sempre de bem com a vida, Jacinto Silva cantava o cotidiano do nordestino, suas dores, suas alegrias, sua saudade, seus amores. Falecido há 11 anos, sua obra ainda é pouco conhecida entre os alagoanos. Adotado por Pernambuco, nunca esqueceu suas raízes, como bem expressou nos versos da canção intitulada "Onde Canta o Sabiá", evidentemente inspirada no poema "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias:

Minha Palmeira dos Índios
Terra do meu coração
Vou rever os meus amigos
Passear no meu torrão
Vou cantar na vaquejada
Da Princesa do Sertão

Eu tenho muita saudade
De um açude que tem lá
Em Palmeira tem palmeiras
Onde canta o sabiá
Foi em Palmeira dos Índios
Que eu aprendi a cantar

Na Rua da Pitombeira
E na Rua de São João
Eu joguei bola de meia
No campo da estação
Vou voltar pra minha terra
A Princesa do Sertão

Que saudade da Palmeira
Da Serra do Candará
Do Coité e da Cafurna
Das festas boas de lá
Das morenas da Ribeira
E das noites de luar

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