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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Sou um sobrevivente

Chegar aos 30 anos de idade vivendo no Estado de Alagoas é motivo de dupla comemoração. Uma, a mais evidente, é intrínseca à passagem da data: celebro mais um giro completo em torno do Sol. A segunda é de alívio, por escapar das mais cruéis estatísticas nacionais.

 

O primeiro desafio que os alagoanos têm de encarar é completar um ano de vida, haja vista nossa alta taxa de mortalidade infantil. Não bastasse sermos campeões nesse triste ranking, lideramos também a mortalidade juvenil, segundo o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência (IVJV). Inédito até 2009, esse indicador social leva em consideração a taxa de homicídios, as mortes por acidentes de trânsito, e os indicadores de emprego, educação, pobreza e desigualdade na faixa etária entre 12 e 29 anos.

 

Chegamos a tal situação graças à ausência de políticas públicas eficientes e eficazes para a juventude, ou melhor, para as juventudes, já que ser jovem é pertencer uma categoria plural, diversa, bastante heterogênea. Pesa muito nisso a nossa forte tradição coronelístico-cangaceira, e, mais que tudo, a certeza da impunidade, que relega ao esquecimento as vítimas que todos os dias tombam sobre nosso chão. O esquecimento é a segunda morte. Nesse sentido, nossos jovens têm morrido duas vezes.

 

É certo que há um genocídio velado, já que o maior número de vítimas dessa guerra pertence à população negra e empobrecida. Mas a brutalidade não escolhe cor, idade, gênero, credo ou condição social. Do jeito que estão as coisas, todos os alagoanos são vítimas em potencial.

 

Ao superar a faixa etária mais ameaçada pela violência, este vivente das Alagoas que vos escreve só tem o que celebrar. Apesar de dolorido pela dura caminhada, sou um feliz sobrevivente!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sobre relógios, sonhos, liberdade, e sobre ser palmeirense


Na sexta-feira passada (dia 5), a Secretaria de Estado da Cultura (SECULT) promoveu a estreia dos cinco curta-metragens que foram selecionados no 2.º Prêmio de Incentivo à Produção Audiovisual em Alagoas. Foram eles: “Memórias de uma Saga Caeté”, de Pedro da Rocha Oliveira; “Farpa”, de Henrique Cavalcanti Almeida Oliveira; “Exu, Além do Bem e do Mal”, de Werner Salles Bagetti; “O que lembro, tenho”, de Rafhael Barbosa e Associação Cultural PopFuzz; e, finalmente, “Sobre Relógios, Sonhos e Liberdade”, de Ailton da Costa Silva Júnior e Cine Clube Lampião Cultural, objeto de nossa análise.

“Sobre Relógios...” apresenta a rotina de um jovem e solitário sujeito (interpretado pelo diretor Ailton da Costa, que também assina o roteiro) que trabalha num escritório de contabilidade, que vive ordinariamente preso à rotina, e que é atormentado por um sonho que o impede de distinguir entre o que é real e o que é ilusão. O roteiro foi elaborado no mais conhecido estilo graciliânico: seco, angustiado, revelando o barulhento e cinzento silêncio da vida em Palmeira dos Índios.

Como em “Vidas Secas”, há a economia de palavras: das vozes humanas em contato direto com esse sujeito, apenas se ouve a do chefe dando-lhe uma bronca, um burburinho noutros ambientes sociais. Mas é só. No mais, somente a voz de uma repórter na TV entrevistando um poeta e professor de filosofia, uma personagem que interpreta a si mesma, misturando ficção e realidade e jogando ainda mais com a pergunta: o que é real e o que é ilusão? O protagonista não fala uma palavra. Mas sonha. Deseja. Lê. Ouve música. Passeia pelos arredores. Anda na linha. Sonha que dorme na linha (olhe a loucura!). Trabalha. E sonha. Trabalha. E sonha. E trabalha dormindo. E sonha acordado.

É correto afirmar que “Sobre Relógios, Sonhos e Liberdade” é um filme palmeirense, não somente por ter Palmeira dos Índios como cenário, mas também por ser totalmente produzido por palmeirenses, no sentido mais profundo que esse adjetivo pode ter. Graciliano Ramos, o morador mais ilustre dessa cidade histórica, já havia afirmado no início da década de 1920, quando a cidade já tinha cinema (hoje, não mais!): “O Brasil é um país fundamentalmente carnavalesco. Palmeira é uma cidade essencialmente brasileira. Boa parte dos defeitos e das virtudes que no brasileiro se encontram, em geral, o palmeirense possui, em particular”. Mais tarde, em seu primeiro romance, “Caetés”, cuja estória se também se passa em Palmeira dos Índios, Graciliano apresentaria o protagonista João Valério, que, curiosamente (embora o roteirista afirme não haver lido ainda o livro) tem muita semelhança com o protagonista anônimo do curta: trabalha como guarda-livros, “vagabundeia por aqui, por ali, por acolá”, é introspectivo e movido pelo desejo de “devorar” o patrão. Também prefigura no filme o tema do suicídio, trabalhado tanto em “Caetés” quanto em “São Bernardo”, e presente na Teoria Social desde os clássicos, com Durkheim, bem conhecido de Ailton da Costa, que também é mestrando em sociologia da UFAL.

Apesar se sentir-se inadequado, não cabendo em nada (nem em seus sonhos), o que esse palmeirense faz para modificar a sua situação? Como João Valério, ele não faz nada. Apenas vai deixando a vida lhe levar, vítima do sofrimento populacional que aflige a cidade. No entanto, parafraseando o que Pierre Bourdieu disse de Sartre, o mal-estar que essa obra expressa é o mal-estar de ser no mundo, não o mal-estar de ser intelectual, onde tanto o protagonista de “Sobre Relógios...” como os produtores do curta estão como um peixe na água.


Ledo Ivo nos alerta: “Nada impede a criatividade”. O grande poeta referiu-se à obra de estreia de Graciliano Ramos para ilustrar que, do nada, o artista pode criar, pode fazer o novo. Principalmente se esse lugar se chamar Palmeira dos Índios: “No lugar onde nada acontece, aconteceu Caetés”. Pois, hoje, no lugar onde não há salas de cinema, está acontecendo uma efervescência na produção cinematográfica. O Brasil tem o que assistir de Alagoas. Aguardemos o que esses palmeirenses nos trarão por aí...

Assista ao filme: